Do “make in India” ao “make in Brazil”: o que a Índia ensina ao Brasil sobre indústria, juros e soberania digital
A Índia virou peça central do debate econômico global ao combinar crescimento acelerado, política industrial explícita e ambição estratégica para se tornar uma potência tecnológica. Em entrevista à TV 247 no programa “Do Make in India ao Make in Brazil”, conduzido pelo jornalista Leonardo Attuch, o economista Paulo Gala, professor da Fundação Getúlio Vargas, analisou as lições do modelo indiano para o Brasil, discutiu o papel da taxa de juros no estrangulamento industrial, comentou o programa Nova Indústria Brasil e avaliou os riscos e oportunidades do avanço da inteligência artificial.
A conversa parte da viagem do presidente Lula à Índia e do contraste entre dois projetos nacionais. De um lado, a iniciativa “Make in India” e a construção de “corredores industriais” com políticas “muito agressivas”. De outro, um Brasil que ainda debate se deve priorizar “agro e serviço” ou reconstruir uma plataforma industrial moderna, com capital nacional e capacidade de inovar.
Índia: crescimento, indústria e corredores como política de Estado
Paulo Gala situou a transformação indiana em um processo de longo prazo, com aceleração visível nas últimas duas décadas. Ele destacou que, apesar de a Índia ainda ser um país de renda per capita baixa, houve avanço importante: “A Índia conseguiu triplicar a renda per capita em 20 anos.” Na avaliação do economista, manter crescimento médio de 6% a 7% ao ano por cerca de uma década, mesmo partindo de um patamar de pobreza, torna o país um caso de sucesso comparável — em escala menor — à China.
O ponto central, porém, é a clareza de rumo. Segundo Gala, na Índia “a ideia de desenvolvimento econômico se confunde com o desenvolvimento industrial” e isso se traduz em estratégia territorial e setorial. Ele descreveu a lógica dos corredores industriais: dividir o mapa e estruturar áreas prioritárias com incentivos e infraestrutura para acelerar a industrialização e a sofisticação tecnológica.
A conversa também tratou da força dos conglomerados indianos e do simbolismo geopolítico da ascensão industrial. Gala mencionou a Tata Motors e o fato de a empresa ter comprado marcas historicamente ligadas ao antigo colonizador, interpretando como sinal de potência e reversão de hierarquias: “Eu costumo brincar que é a ironia do destino, né? O colonizado comprando o seu colonizador.”
“Campeões” que conquistam o mundo e a diferença entre Brasil e Índia
Um dos eixos do debate foi a noção de “campeões” e o que a política industrial deve buscar. Gala argumentou que o problema não é apoiar empresas para ganhar escala, e sim apoiar sem exigir desempenho e projeção externa. Para ele, o critério decisivo é transformar empresas em vencedoras globais: “O campeão nacional é uma meia verdade… Quando ele vira um campeão internacional, isso é a prova do pudim de que ele deu certo.”
O economista comparou a capacidade industrial dos dois países em termos de produção e dinamismo empresarial. Ele afirmou que a Índia tem “um produto industrial de quase 500 bilhões de dólares”, enquanto o Brasil estaria em torno de “250 bilhões”. A leitura é que a ascensão de uma burguesia industrial na Índia é alimentada por um ambiente em que “as pessoas estão ganhando dinheiro… produzindo coisas industriais”, ao passo que o Brasil enfrenta estagnação e perda relativa desde o pico industrial de 2012, segundo a avaliação apresentada na entrevista.
Nesse ponto, o programa tocou em um tema sensível: o efeito de juros elevados e incentivos distorcidos que empurram grupos nacionais a vender negócios produtivos e migrar para renda financeira. A síntese de Gala é direta: juros altos tornam o desenvolvimento industrial “muito difícil”, sobretudo quando o financiamento ao setor produtivo ocorre a taxas próximas de mercado.
Juros, TLP e custo Brasil: o gargalo que trava a indústria
Ao abordar a taxa de juros como “calcanhar de Aquiles” do Brasil, Gala relacionou o problema a um conjunto de fatores: sobretutação, infraestrutura, logística e crédito caro. Ele observou que, enquanto o agronegócio consegue taxas subsidiadas, o setor industrial enfrenta condições mais duras, o que compromete investimento, inovação e competitividade.
O trecho mais detalhado da entrevista foca a TLP, referência para empréstimos do BNDES, apresentada como uma taxa atrelada ao custo de mercado e, portanto, incompatível com estratégias de reindustrialização acelerada. Na visão do economista, a dificuldade de mudar essa lógica é política: o governo tenta, mas o Congresso “barra”, em parte por uma interpretação herdada do debate sobre “campeões nacionais” e por resistência a subsídios produtivos.
Gala defendeu subsídios, com condicionantes claros: inovação, avanço tecnológico e contrapartidas. Na formulação dele, não se trata de “desonerar a folha” genericamente, mas de apoiar setores de fronteira capazes de criar tecnologia, patentes e empregos qualificados.
Capital nacional, inovação e soberania tecnológica
Ao responder sobre capital nacional versus capital internacional, Gala adotou uma posição categórica: “Com capital internacional é impossível. Minha resposta é clara.” O argumento é que multinacionais, embora importantes, tendem a manter os centros de pesquisa, patentes e desenvolvimento na matriz, deixando para as filiais a etapa de montagem, produção padronizada e mercados de consumo — o que reduz a internalização da inovação.
A entrevista conectou esse ponto ao balanço de pagamentos e a um “déficit intelectual” brasileiro. A conversa citou remessas de lucros, déficit em serviços e pagamentos por royalties e patentes, apresentados como parte de um circuito que drena renda e limita a construção de capacidades tecnológicas domésticas.
Nesse contexto, a agenda de “soberania digital” apareceu como um tema de Estado. Para Gala, é “completamente estapafúrdio” imaginar que países como Rússia, China ou Índia deixariam dados sensíveis em nuvens externas. Ele mencionou iniciativas públicas de infraestrutura de nuvem e sugeriu que elas poderiam servir como alavanca para uma nuvem brasileira robusta, capaz de reter valor, conhecimento e segurança.
Data centers e Redata: oportunidade ou nova “commodity” brasileira
A discussão sobre inteligência artificial levou ao debate sobre data centers e à aprovação do Redata, citado na entrevista como pacote de incentivo fiscal e estímulo à implantação fora do eixo tradicional, especialmente em regiões como Nordeste, Norte e Centro-Oeste. Gala avaliou positivamente a desconcentração industrial, mas condicionou o sucesso da política ao desenho do ecossistema.
A advertência foi clara: data centers podem ser “maravilhosos” se servirem de catapulta para software e hardware nacionais; mas são “mau negócio” se o país virar apenas fornecedor de energia barata e água para resfriamento, reproduzindo o velho padrão exportador de baixo valor agregado. Na frase que resume a crítica, ele alertou para o risco de o Brasil apenas trocar a pauta: em vez de exportar soja e minério, exportar “energia barata” e água para infraestrutura tecnológica controlada por estrangeiros.
China, Índia e Estados Unidos: disputa produtiva e a nova geopolítica industrial
Gala colocou em perspectiva a distância entre Índia e China: renda per capita e escala industrial ainda são incomparáveis, com a produção industrial chinesa muito maior. Ainda assim, ele apontou um fator geopolítico decisivo: a Índia é vista como mais “ocidente-friendly”, o que atrai esforços de deslocamento produtivo que antes estavam concentrados na China, especialmente sob a lógica de reordenamento das cadeias globais.
O tema apareceu também ao se falar de Estados Unidos, hoje sob a presidência de Donald Trump, e do discurso de “made in America”. Para Gala, reindustrializar um país com salários médios altos é um desafio estrutural, mesmo com uma base industrial ainda enorme. Ele descreveu Estados Unidos e leste asiático como “gêmeos siameses” da globalização: uma integração que gerou lucros e capacidade produtiva, e que agora tenta se descolar sem custos explosivos.
Inteligência artificial e trabalho: risco real, sem “apocalipse” fácil
No fechamento, a entrevista tratou do impacto da IA sobre empregos. Gala rejeitou o termo “apocalipse” como sensacionalista, mas reconheceu o risco de desemprego por um motivo específico: a mecanização de serviços. Ele observou que tarefas antes tipicamente humanas — como produzir relatórios, criar áudio e simular conversas — podem ser automatizadas, pressionando ocupações de classe média e serviços qualificados.
Ao mesmo tempo, ele recorreu ao argumento histórico: revoluções tecnológicas costumam deslocar trabalho, mas também criam novas atividades, e os países mais inovadores tendem a ter menor desemprego quando conseguem “pôr a economia para andar”. A linha final sugere que o problema não é a tecnologia em si, mas o projeto nacional que define onde ficam a pesquisa, as patentes, os empregos e a renda.
Ao comparar “Make in India” e “Nova Indústria Brasil”, Paulo Gala defendeu que o Brasil já tem desenho, mas precisa de mais ousadia, crédito compatível, exigência de inovação e foco em construir capacidades internas. A mensagem principal da entrevista é que não há atalho: sem indústria tecnológica e capital nacional forte, o país continuará preso ao ciclo de commodities, juros altos e dependência externa — inclusive no mundo digital.
Fonte: Brasil 247