Pelo imediato fim da escala 6×1

Pelo imediato fim da escala 6×1

Autor: Angelo Cavalcante

A dita escala 6×1 de trabalho é uma excrescência, uma perversão, uma abominação jurídica e organizativa e que não se justifica sob qualquer aspecto ou dimensão que se queira analisar.

Por sinal, é um conceito tempo-produção que dialoga com um Brasil que já não existe, um Brasil pré-industrial e que bebe nas piores e mais degeneradas relações a envolver capital e trabalho e mais ainda… É uma lógica destrutiva, brutalizante e massificante de gestão dos tempos do trabalho e que bem mais do que disciplinar profissionalmente esse mesmo trabalho opera objetiva e subjetivamente na plena submissão daquele que diretamente realiza a produção em um tipo humano destituído, desprovido de sensibilidades, de valores ou de direitos elementares de vivência ou convivência social ou familiar.

Esse, não tem jeito, é o pior dos crimes contra o trabalho e os trabalhadores porque é de uma inteligência sutil, rara e devastadora… Porque, reparem bem, se centra, se funda e se ampara no tempo.

O tempo, ora, é essa dimensão onde tudo, absolutamente tudo, acontece… Nossa humanidade, nosso desenvolvimento físico, cultural, social, emocional e humano se dá, se realiza no tempo… E nada está fora desse tempo e do seu similar conceitual, o espaço .

Porque, ora, ora… Tempo é espaço e, da mesma forma, espaço é tempo e isso já está mais do que provado.

Quem não tem tempo… Não tem espaço, não tem espaços…

Espaços para brincar, viajar, estudar, conhecer pessoas, se divertir, ir para praias, rios, festas, vales ou cinemas.

Não ter tempo é, de novo e da mesma forma, não ter espaço… E animais não tem tempo, por isso ficam restritos, limitados e circunscritos a currais, correntes, cordas, gaiolas, jaulas, cercados ou criatórios e, em seguida, CLARO , são abatidos.

É que não há o tempo tal qual o sabemos, tal qual o conhecemos para a vida animal. Aí o tempo é o tempo do corpo… É tempo como fisiologia, como, por exemplo, carência alimentar, sexual ou como mero instinto de sobrevivência.

Aí não há espírito… Espírito aqui não é uma “alminha”, um “fantasminha”… É espírito como delicadeza, sensibilidade, arte e SER.

No mundo dos homens a coisa é bem diferente… Tempo é sentido porque dele depende todas as outras coisas; o tempo do estudo tece futuro; o tempo do lazer gera bem-estar físico e mental; o tempo de estar com a namorada, com os amigos, com a esposa e os filhos se converte em unidade, convivência e sentimento mútuo e recíproco. O tempo do trabalho gera capacidades prospectivas, quero dizer… Não é, nunca é o trabalho pelo trabalho mas, vejam só… É o trabalho porque sonho com minha casa, meu carro novo, aquela viagem ou o cuidado com as pessoas que amo.

Ora, nada é mais importante do que o tempo, não há riqueza mais potente e valiosa do que o tempo, do que o próprio tempo. Esse é bem não-renovável e seu tempo perdido… Já era!

Você não compra o tempo pela internet ; você não faz download do tempo; você jamais irá na farmácia, no armazém ou no shopping e dirá ao atendente: “por favor, quero duas doses de tempo!”.

Tempo é imanência, é uma ampla, complexa e delicada teia de expressões, ações e transcendências e que afirma o homem como construtor de si no ato de realizar… Trabalho .

Nesse paralelo, a jornada 6×1 é dos maiores abusos e absurdos contra os trabalhadores brasileiros porque, em primeiro, resguarda o núcleo ancestral e escravocrata e que sempre definiu o trabalho no Brasil e, em seguida e por consequência, lhes tira tempo ludens , tempo lúdico, de aprendizagem, de gozo e de alegria e o subsome, segundo o pensar de Max Weber, no “moinho satânico” do capital e que gira em si, por si, para si e buscando perpetuamente se centrar sem jamais e, no entanto, achar seu próprio centro.

Quem controla a produção, controla os tempos, tanto os tempos individuais quanto os tempos coletivos e é preciso que os trabalhadores compreendam o que são seus corpos, seus sentidos e suas vidas sob as dinâmicas, prioridades e imperativos sócio-produtivos do capital periférico e dependente do Brasil; em síntese, um homem sem tempo… É um homem sem vida .

Sem vida!

Por isso lutamos pelo imediato fim da infame e desgraçada escala 6×1!

Angelo Cavalcante – Economista, cientista político e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara.