Brasil da Silva
Autor: Angelo Cavalcante
O desfile da Acadêmicos de Niterói, na noite de ontem, foi uma explosão!
Mais ainda…
…Foi, digamos assim, uma supernova onde estrelas, muitas, diversas, milhares e milhões delas, emergiram, despontaram, pulularam plenas, ativas e soberbas e diante dos nossos olhos.
O essencial dessas estrelas, reparem bem, sequer estava fisicamente no desfile, não estava nas arquibancadas do majestoso Sambódromo ou mesmo na magnética e efervescente cidade do Rio de Janeiro.
O essencial desse instante mágico, efusivo e irradiante… Estava por todo o Brasil.
O essencial?
Ora… Esse essencial são milhões e milhões de espectadores e que se alinharam para assistir ao desfile e que, de forma pedagógica, clara e cristalina, tratava da incrível e inacreditável vida de Luís Inácio Lula da Silva, o atual presidente do Brasil.
É estranho, mas, inclusive gente que não gosta de carnaval, parou seus afazeres e sua noite para assistir a apresentação da ousada e corajosa escola de Niterói.
Olha…
…É dessa potência ancestral e indescritível e que Luís Inácio possui de mobilizar afetos, sentidos e sentimentos alheios e que, de fato, estou a tratar… Isso… Isso não tem preço!
É impressionante!
É uma vida intensa e plenamente ativa e soergue desde militantes partidários até a abertos e assumidos opositores, por exemplo, do setor empresarial, do agronegócio, das obscuras esferas do neoprotestantismo e perpassando por milicos magoados e ressentidos.
Nada, absolutamente nada, escapa de Lula enquanto fenomenologia social, cultural e política.
É uma situação tal de envolvimento e complexidade política que sutil e inteligentemente abarca, abraça e toma quem, inclusive, se afirma fora, distante e alheio a esse quadro.
Quem se diz fora, veja só, está dentro; quem combate, cria os mesmos enredos e processos e que o vincula, liga e faz conexão. É, pelo menos, curioso!
A ciência política, sobretudo, a partir dos estudos de André Singer (USP), classifica tal fenômeno como lulismo e que, bem distinto do petismo , garante processos, dinâmicas e interfaces e que o PT, per si , jamais conseguiria efetivar.
Em síntese… O PT segue um programa; o lulismo é esse programa e sua transcendência; o PT almeja horizontes, o lulismo é também, o pragmatismo do “aqui-e-agora”; o PT busca se atualizar, o lulismo se atualiza na mesma medida e proporção em que conserva ranços e tradições e o faz como tática, estratégia e possibilidade de sobrevivência.
Enfim, “o PT é o sonho, o lulismo é o feijão”.
E nos identificamos com tudo isso, nos vemos, nos encontramos nessa lógica!
Vejam… O semiárido pernambucano onde Lula nasceu nos entremeios de Garanhuns e Caetés , tratemos assim, como espécie de deserto.
Não é exagero…
É um deserto com donos, cheio de cercas e sob o comando brutal de oligarcas. Lula nasceu nessa quebrada. No geral, crianças recém nascidas não vingam nesse lugar, elas morrem antes dos três, quatro anos. Morrem em série, em escala, em velocidade frenética pela fome, pela sede, pela diarréia ou pelas chacinas perpetradas pelos coronéis da época e que tinham que, digamos assim, disciplinar rebeldes e indisciplinados e claro, afirmar o próprio poder político.
Mas essa ordenação sócio-política se deu, reparem bem, por todo o nordeste, aliás, das principais razões da miséria nordestina não se acha a seca em si, diferentemente reside justamente do uso político e que se faz dessa mesma seca.
Não é, nunca foi a seca… Foi a política e daí advinda!
Não é a falta d’água mas é a ação concertada e orquestrada e que donatários locais e regionais fizeram para a garantia da manutenção do seu poder e o que tudo isso representava, inclusive, nacionalmente.
Não é a seca… Tomemos, por exemplo, o caso maranhense; o estado do Maranhão está situado no assim dito “Meio Norte”, faz imensa fronteira com o Pará e é parte da assim chamada Amazônia Legal , sua geografia é única e distinta e no geral, não há seca no Maranhão.
Em síntese, mais da metade do Maranhão é Amazônia! Nesse mesmo paralelo, os indicadores sociais desse mesmo Maranhão são, vejam bem, subsaarianos.
Não é a seca, mas o que foi feito dela!
Há magistral depoimento do professor Celso Furtado quando da criação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) e da oposição feita precisamente por grande parte da bancada de deputados do nordeste.
Furtado, ministro de João Goulart, teve que, em paciência zen-budista, construir delicadamente as condições para que essa proposta passasse pelo “paredão” político dos parlamentares nordestinos e afiados aos grupos regionais de poder.
Bom… O entendimento de dona Lindu ao atrepar seus filhos em um “pau-de-arara”, dentre eles, um tímido e franzino Luís Inácio é o ATO POLÍTICO do século.
Era para não perdê-los para o desterro, para o desamparo e para a indiferença histórica e nacional e que o nordeste sempre causou. Não sabia que o caminhão de Lula iria mudar para todo o sempre a história do Brasil.
É uma saga heróica, é um confronto de titãs… A história de Lula não gera indiferença, não pode gerar indiferença porque é uma galáxia!
Apenas a pior e mais degenerada direita brasileira consegue ser indiferente a tudo isso o que, de outra forma, representa um tipo de suicídio político porque nessa mesma história estão as variáveis, nuanças e fatos e que modernamente determinam o Brasil.
Não precisa gostar de Lula, não precisa votar no Lula, não é necessário se filiar ao PT ou tascar votos em seus candidatos, mas é decisivo e inteligente reconhecer que o trajeto, o itinerário de Lula é o fundamental do Brasil, das suas margens, das suas quebradas e periferias e ignorar a periferia… É fatal!
Lula da Silva passou fome, sentiu medo, perdeu amores, perdeu entes, sofreu pelo descaso de serviços públicos insuficientes e precários.
Na política, Lula foi incompreendido, virou herói, virou pelego, traidor; foi algemado, humilhado, ameaçado, preso.
No cárcere, sua mãe, dona Lindú, a armadora, espécie de libelo e que definiu os rumos essenciais de Lula, morre.
Na sua masmorra, Lula chora, se desespera, se deprime, se entorpece, perde as esperanças porque seu imenso sol, sua mãe, havia partido.
Se refaz, se redefine, se re-elabora e dá forma para as principais e maiores greves da história brasileira e que faz tremer, balançar o regime dos militares, mais ainda… Precipita o fim da ditadura brasileira.
Não para… Cria um partido político, o PT; isso se desdobra e dá forma para a CUT, MST e uma nova cultura sindical e que irá tomar o país.
Em 2002, Lula se elege presidente trazendo um largo combo de políticas sociais que muda a face do pauperismo brasileiro.
Em meio a escândalos e contradições, Lula se reelege; na sequência, logra eleger a ex-guerrilheira Dilma Roussef para o governo da União e que, em 2016 é derrubada por um golpe canalha a envolver a mídia, o parlamento e setores importantes do empresariado brasileiro.
Como parte dessa trama de poder, Lula é preso em 07 de abril de 2018, prisão arbitrária, absurda, sem efetivas provas e com aberto caráter político a partir das arrumações de um juiz partidário e desonesto da provinciana e reacionária cidade de Curitiba.
Lula permaneceu preso até 08 de novembro de 2019 quando, em 2022, se lança na disputa para seu terceiro mandato presidencial.
Vence e vence do principal medalhão do neofascismo latino-americano!
Mas não o vence de qualquer forma e maneira… Vence milícias, máfias locais, o Estado brasileiro e toda a sua estrutura; vence os poderosos capitais do agronegócio, aliás, dos maiores do planeta; vence um imenso humano de lobotomizados por certa crença evangélica e, de novo, vence a mídia brasileira toda corporativada e sedenta por dinheiros.
Como dito… Não há como ser indiferente! Burros, idiotizados e gente magoada consegue ser indiferente a tudo isso nesse que é, do ponto de vista dos valores culturais e humanizantes, dos mais atrasados países do mundo.
Aliás, repara… Esse é dos maiores e mais graves erros políticos da nossa já bem degradada direita brasileira.
O desfile da Acadêmicos de Niterói , entre rítmicas, tambores e uma bateria notavelmente charmosa e hipnótica, nos lega um experimento sensorial único e arrebatador a envolver história, política e Brasil.
Ao fim, o Brasil inteiro estava na passarela!
Viva!
Angelo Cavalcante – Economista, cientista político e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara.
