Projeto resgata autoestima de mulheres plus size em Goiânia
Márcio Souza, do JGDN
Seja na TV, nas revistas ou redes sociais, o corpo magro ainda é visto como o ideal. No entanto, esse cenário está se reinventando. Para promover a representatividade e melhorar a autoestima das mulheres plus size – pessoa que veste acima dos 46 – a modelo Loana Silvah desenvolveu há quatro anos o Universo Plus Goiás.
A idealizadora do projeto afirma que recebia diariamente pelas redes sociais várias mensagens de mulheres que não conseguiam amar o próprio corpo. “Como modelo plus size, muitas mulheres se inspiraram em mim, mas, mesmo notarem minha alegria e autoestima, essas mulheres não conseguiam sentir o mesmo por elas, e isso foi me incomodando. Então, percebi que precisava fazer algo, e foi aí que veio a ideia de criar o grupo Universo Plus Goiás, que é um espaço onde dividimos histórias, experiências, além de promover ensaios fotográficos”, conta.
O próximo ensaio sensual ocorre neste domingo (14), no Afrodite Motel, em Goiânia. Ao total, 15 mulheres serão fotografadas. “O ensaio é como se fosse uma libertação para elas, é uma forma de mostrar que elas podem sim ser sensuais, e podem sim ser lindas do modo que são e que não precisam emagrecer. A beleza vai muito além do seu tipo físico”, pontua.
Loana conta que ainda tem dificuldades em encontrar roupas no tamanho do seu corpo. Em 2018, segundo dados da Associação Brasileira de Plus Size (ABPS), enquanto outros setores da economia registraram prejuízos e queda na produção, o mercado de vestuário para tamanhos acima do 46 movimentou R$ 7,2 bilhões, registrando crescimento de 8%.
“Mesmo o mercado da moda abranger cada vez mais lojas que tenham plus size, esse tamanho ainda é limitado. O mercado ainda não enxergou que uma mulher gorda também pode andar bem vestida. Quando eu trabalhava em um das poucas lojas de roupas para mulheres gordinhas, eu via várias meninas saindo da loja chorando por não encontrarem uma roupa no tamanho delas. Hoje visto 52 e 54 e muitas lojas não têm meu número”, desabafa.
O mesmo sentimento é vivenciado pela modelo Angélica Oliveira. A coordenadora dos ensaios do Universo Plus Goiás relata que já pensou em mutilar o próprio corpo por não se sentir satisfeita consigo mesma. ” É preciso abrir mais mercado para as mulheres gordinhas, porque muitas vezes a gente vai numa loja e não se identifica, não tem roupa para o nosso tamanho e isso é muito triste, é frustrante. Eu já pensei várias vezes em mutilar meu corpo, de cortar minha barriga. Isso é muito sério”, lamenta ela.
A modelo e cantora Jéssika Thaís conheceu o projeto através das redes sociais. Segundo ela, foi uma grande oportunidade de lutar contra o preconceito e depressão. “O Universo Plus Goiás é a coisa mais maravilhosa que tem, porque você pode mostrar toda a sua beleza sem medo de julgamentos, sem preocupar. Você vai lá e é você. Gordas e empoderadas têm que mostrar o corpo. Vamos colocar aquele vestido que você olha e fala: “hoje eu arrasei!'”, diz empolgada.
Jéssika conta que sempre foi mais cheinha e que sofreu gordofobia na escola. “Na época, eu apanhava por estar acima do peso. Me xingavam todos os dias, e isso prejudicou muito a minha autoestima”, lembra.
O processo de aceitação, de acordo ela, foi devagar. Depois de ter vergonha de sair de casa com roupas largas, Jéssika resolveu deixar de lado o que as pessoas pensariam sobre ela e passou a se orgulhar da mulher que se tornou. Começou a variar o guarda-roupas, pintou e cortou o cabelo da forma que sempre quis, além de voltar a cantar, resgatando sua autoconfiança, paixão pela música e interesse pela moda.
“Eu sempre amei o mundo da moda. Sempre amei ver desfiles, acompanhar o processo de construção das roupas, dos tecidos. Mas observava que as modelos eram todas magras, e logo pensava, como é que uma roupa dessa um dia vai caber em mim?”, recorda.
Para ela, desfilar na passarela em um dos concursos do Universo Plus Goiás foi um grande sonho realizado. “Nunca imaginei que um dia eu estaria numa passarela desfilando moda plus size. O que eu mais amo é poder estar no meio desse conjunto de guerreiras. Então eu digo que você, mulher, é linda e bela. Você já nasce você. Só tem que ser feliz com você mesma, não se importar com o que as pessoas falam”.
Para driblar de vez o preconceito, a modelo Djayne Oliveira, assim como Jéssika, reforça que o essencial é não ligar não para o que os outros falam a respeito do seu corpo. “O preconceito sempre existiu e, infelizmente, sempre vai existir. Então, tento mostrar pra elas que eu sou muito mais do que um tamanho 46”.
Ela conta que nem sempre foi uma pessoa gordinha, que era magra na adolescência, mas nunca conseguiu vestir roupas tamanho 38. Por muitos anos, Djayne enfrentou dietas mirabolantes que prometiam o corpo “perfeito”, porém não obteve sucesso.
“Já fiz todas as dietas possíveis e impossíveis pra poder caber num tamanho que não era o meu, e foi aí que me descobri gorda e falei que a partir daquele momento eu me aceitava como eu era”.
Djayne conta que se tornou uma mulher empoderada depois de conhecer os trabalhos do Universo Plus Goiás.”Eu conheci o grupo através da Loana e olhando os ensaios fotográficos que eram feitos eu vi que elas tinham uma autoestima diferente da minha e que, mesmo usando tamanho GG, elas eram felizes. Eu nunca tirava foto do meu corpo, somente do rosto, e poder fazer um ensaio fotográfico de corpo inteiro foi uma forma de me enxergar de uma maneira diferente e me empoderar”, relata.
Famosas também passam por gordofobia e preconceito no dia a dia. A atriz Mariana Xavier foi vítima de preconceito inúmeras vezes nas redes sociais.
“Cheia de problemas de saúde. Você está no caminho certo”, disse uma internauta, que mandou Mariana “morrer gorda”. A atriz do filme “Minha Mãe é Uma Peça”, não deixou abalar sua autoestima e respondeu:
“Morro quando for a hora, gorda ou magra, mas saudável de corpo e alma”, disse. Ela acrescenta que é feliz como é e, então, detona a preconceituosa: “E você vai morrer também, viu? Talvez, mordendo a língua e intoxicada com o próprio veneno. Equivocada, grosseira, narcisista, sozinha, postando festival de selfie… Deve ser uma ótima companhia (risos)”, escreveu.
Para Djayne, a quantidade de atrizes gordas em destaque na televisão ainda é muito pouco. “Deveria ter mais, porque a pessoa não pode ter sua capacidade julgada só por ser gorda. Tem pessoas espetaculares esperando uma oportunidade que não é dada porque acham que ela não ficaria tão bonitinha no vídeo da TV”, pontua.
Para ela, ser gorda não é sinônimo de doença. “A gente também faz atividades físicas para manter a nossa saúde em dia e mente tranquila”.
O sonho de modelo que não vingou quando era adolescente se tornou realidade graças ao projeto Universo Plus Goiás. “Tive contato com a moda quando era mais jovem, mas me decepcionei, pois quando fui numa agência, me disseram que teria que ‘arrancar meu quadril’, porque para eles modelo não podia ter quadril grande. Hoje, eu vejo que esse é o meu momento de estar no mundo da moda, por enxergar que eu sou uma pessoa com potencial, e que a mulher gorda pode ser o que ela quiser. Sexy, empoderada, bonita com ou sem maquiagem. A mulher plus size veio pra ficar e conquistar seu espaço”, conclui Djayne.
A estudante de jornalismo e modelo, Layane Sousa, conta que a palavra “gorda” sempre foi visto como algo terrível em sua casa. Por ter uma irmã gêmea mas que se encaixava no padrão, as comparações eram inevitáveis. “O preconceito sempre esteve presente dentro da minha casa. Na escola era terrível. Havia dias que eu passava mal porque não aguentava tanto tormento por parte dos meus colegas”, lembra.
“A palavra gorda começou a ser vista como uma característica quando eu entrei na universidade e através do conhecimento que é empoderador pude experimentar e assumir o papel de uma gorda, negra e maravilhosa, sim, maravilhosa, pois ser mulher nunca foi fácil e estar fora de todos os padrões é um desafio”, declara.
Layane conta que passou momentos de angústia ao visitar uma loja de roupas aos 11 anos de idade.”Quando entrei na loja a dona não veio me atender, ficou de longe. Eu perguntava sobre a peça e ela prontamente dizia que não tinha do meu tamanho. Foram umas 7 peças ou mais e não tinha o meu número, daí perguntei então o que tinha do meu tamanho, ela veio até mim e disse: “não tem nada para você aqui, nada do seu tamanho, aqui não é seu lugar!”, relembra ela, que completa: “essa também foi a fase que uma colega me apresentou a bulimia – perda do controle no consumo de alimento de forma incontrolável – depois desse episódio, eu comecei a ter a doença como saída, porque vomitar e tomar remédios me prometia um corpo digno de caber naquelas roupas que eu queria”.
O empoderamento feminino só aconteceu na vida da estudante ao receber apoio de outras pessoas.”Conheci a Alexandra Gurgel, uma jornalista incrível que mesmo sem saber do que eu havia passado, me ajudou. Ela falava sobre sua trajetória, sobre terapia e eu me agarrei a essa influência que me fazia entender que eu não era a horrível por ser gorda e sim o mundo por me julgar pelo tamanho da minha roupa. Comecei a adquirir conhecimento através do meu curso que é o jornalismo, que poderia me transformar em uma pessoa melhor, e não em ‘quilos a menos'”.
Se olhar no espelho se tornou um grande desafio para Layane, mas a força de vencer o medo e encarar o preconceito a fizeram se enxergar como uma nova mulher. “Já tiveram dias que eu esqueci do meu valor. Não me olhava no espelho nem de relance. Hoje tenho um espelho no meu quarto enorme e tenho mais outros três pequenos, ao me olhar falo para mim mesma que sou especial, linda e tá tudo bem não me encaixar em nenhum padrão, eu continuo sendo especial e linda”, comenta.
Assim como as outras entrevistadas, Layane também ama moda. “Sou daquele tipo de gente que gosta de um look pra causar, amo combinações diferentes e isso faz parte da minha personalidade. O concurso do Universo Plus size chegou na minha vida de maneira repentina. Recebi o convite e aceitei. Eu diria o seguinte a todas as meninas que passam por momentos que passei e ainda passo, que elas sejam quem quiser ser, independente do que vão falar, porque, infelizmente, as pessoas vão falar, o importante é ser você”, finaliza.
Concurso Miss Plus Size
Segundo a organizadora dos ensaios, Angélica Oliveira, os trabalhos oferecidos pelo Universo Plus Goiás não recebe nenhum valor financeiro, e sim parcerias e divulgações para atingir maior número de mulheres que enfrentam discriminação por estarem acima do peso. O projeto se tornou uma grande oportunidade para mulheres que sonham ingressar no mundo da moda plus size.
“Não ganhamos dinheiro. Ganhamos sorrisos de felicidade, depoimentos de mulheres relatando que estão vencendo a depressão através do projeto. Além disso, ajudamos mulheres que queiram se profissionalizar como modelo plus size”, esclarece.
Em meados de novembro, conforme Angélica, vai ocorrer o concurso Miss Plus Size. As inscrições já estão abertas, todas as informações podem ser obtidas pela págino no Instagram: @universoplusgo.